segunda-feira, 29 de outubro de 2012

LEMBRANÇAS ETERNIZADAS


A Segunda Guerra Mundial pelas palavras de quem lutou

No dia 2 de maio é comemorado o dia do Ex-combatente. Em homenagem aos veteranos de guerra, a reportagem do Jornal O Líder preparou uma reportagem especial onde os Ex-combatentes fazem um relato completo e verdadeiro da guerra que matou mais de mil soldados brasileiros

Reportagem: Camila Pompeo

Símbolo da FEB
No dia 1º de setembro de 1939, as forças nazistas alemãs de Adolf Hitler invadiram a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. O Brasil passou a participar do conflito a partir de 1942, na época do governo de Getúlio Vargas. A princípio, a posição brasileira foi de neutralidade, mas depois de alguns ataques a navios brasileiros, Getúlio Vargas decidiu entrar em acordo com o presidente americano para dar início à participação do país na Guerra.
            Dos quase 25.500 soldados que embarcaram, pelo menos 1.230 morreram em batalha durante os 292 dias de conflito. Hoje, pouco mais de 70 anos desde o início da Segunda Guerra Mundial, a história continua viva na lembrança dos ex-combatentes brasileiros que participaram do conflito. Em homenagem aos personagens brasileiros que estiveram nas frentes de batalhas na Itália, foi criado o Dia Nacional do Ex-Combatente, comemorado no dia 2 de maio.

“ERA DE ARREPIAR SABER QUE ÍAMOS PARA A GUERRA (...)”

Ex-combatente não atuou nas frentes de batalha, mas acompanhou de perto a atuação dos colegas de farda brasileiros que lutaram e morreram durante o conflito

Lindolfo Guilherme Arend - Foto: Camila Pompeo
            O primeiro grupo de militares brasileiros chegou à Itália em julho de 1944. O Brasil enviou pouco mais de 25 mil homens da Força Expedicionária Brasileira (FEB), 42 pilotos e 400 homens de apoio da Força Aérea Brasileira (FAB). O objetivo era ajudar os norte-americanos na libertação da Itália, que, na época, estava parcialmente nas mãos do exército alemão. Com 92 anos, Lindolfo Guilherme Arend lembra de cada detalhe da batalha ocorrida nos anos 1940 e conta emocionado o que viu da Guerra.
            Na manhã do dia 25 de dezembro de 1944, o jovem Lindolfo, de 25 anos, e os colegas de farda saíram da cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul rumo ao Rio de Janeiro onde as tropas foram preparadas. Em fevereiro de 1945, o navio partiu rumo à Itália. Os pais do jovem militar só descobriram o paradeiro do filho quando ele já estava no país italiano. “Era de arrepiar saber que nós íamos para a guerra. Quando chegamos em Napoles, nos arrepiamos e pensamos: “Onde nós fomos nos meter?”. Nós fomos no terceiro escalão, fomos para repor as baixas de militares que haviam sido mortos ou feridos em batalha”, lembra.
Assim que colocaram os pés em solo italiano, a realidade começou a apontar frente aos militares. Com a pressão do exército alemão, a população italiana fugia de suas casas e saía às ruas em busca de alimento e proteção das tropas aliadas. “A trincheira era um lixo. Tinha gente maltrapilha pedindo comida, pedindo cigarro. Não tenho nem como explicar, era uma miséria. Foi muito triste chegar em um ambiente daquele”, relata.
Lindolfo não atuou nas frentes de batalha, mas trabalhou no depósito pessoal das tropas brasileiras. As tropas precisavam estar sempre completas para atuarem contra o exército inimigo, por isso, quando alguns soldados morriam ou eram feridos, outros eram convocados para os substituir. “Nós éramos da Centro de Recompletamento. O efetivo precisava estar completo então quando havia baixa na tropa, eles iam nos buscar. Mas eu tive muita sorte porque quando cheguei, me colocaram na administração do depósito. Eu era bom nisso, mas participei ativamente de instruções e aprendi a manusear novas armas”, conta.
Nos quase 300 dias de conflito, muitos homens integrantes das tropas brasileiras morreram. Porém, na época, os soldados brasileiros não encontravam tempo sequer para sentir medo da morte. “Medo de bala ninguém tinha. A gente estava lá, então não adiantava ficar triste. Precisávamos ficar com a cabeça erguida”, afirma.
Foto da 2ª Guerra Mundial
O longo período o qual os militares precisaram ficar longe da família motivava alguns a escrever cartas. Muitos, no entanto, deixaram de escrever por conta da rígida censura imposta durante a guerra. “As cartas passavam pela censura. Qualquer palavra que eles não gostassem, eles cortavam. Eu nunca escrevi para os meus pais”, explica.
Na sala de administração, os militares controlavam com a ajuda de um mapa, o avanço das tropas brasileiras no território italiano. Com a chegada do inverno, as tropas não saiam da posição e utilizavam artilharia pesada para bombardear-se à distância. “Nos bombardeamos pela artilharia. O gelo tomou conta. Tinha neve de 60 cm a 80 cm de altura, por isso ninguém saía. Quando o gelo começou a derreter, a coisa foi para frente. O Monte Castelo era intransponível”, enfatiza.
Questionado sobre o momento mais difícil em toda a Segunda Guerra, Lindolfo não hesita em responder. “Foi a tomada do Monte Castelo, pois na primeira tentativa, as nossas tropas fracassaram”, justifica.  A batalha do Monte Castelo foi travada entre as tropas aliadas e o Exército alemão, no final da guerra. O objetivo era conter o avanço dos alemães pelo Norte da Itália. Durante a batalha, que durou cerca de três meses, foram efetuados diversos ataques. Muitos soldados não resistiram ao frio e as armas de grosso calibre do Exército alemão.
Os militares integrantes da Força Expedicionária que morriam durante a batalha, eram sepultados no Cemitério de Pistoia, na Itália. “No Monte Castelo perdemos muitos soldados. De um pelotão de 48 soldados, voltaram 17. O resto morreu e só foi encontrado depois que o gelo derreteu. Conhecemos eles apenas por conta da placa de identificação que eles traziam junto ao peito. Perdi muitos amigos também na guerra e só descobri quando fomos visitar o cemitério brasileiro na Itália e encontramos as plaquetas na cruz”, relata.
Em setembro de 1945 chegava ao fim a Segunda Guerra Mundial. Estados Unidos e os aliados saiam vencedores no conflito que matou cerca de 60 milhões de pessoas, entre civis e militares. Enquanto muitas tropas se preparavam para voltar para o Brasil outras, continuavam em solo italiano trabalhando em combate a qualquer tipo de doença. “Os americanos eram muito exigentes, não queriam deixar doenças para trás. Nós íamos de casa em casa procurar o mosquito da malária. Onde achávamos um foco do mosquito, colocávamos veneno dentro e acabávamos com ele”, lembra.
Na volta ao Brasil, os expedicionários foram recepcionados calorosamente pela população brasileira e pelas famílias que aguardavam ansiosas por notícias. A festa de recepção durou dias no Rio de Janeiro, na época Capital da República. “No Brasil a recepção foi muito bonita, os familiares estavam esperando. Eu não tinha familiar presente, por isso fiquei assistindo. Estava feliz porque tinha voltado”, revela.
Cerca de três anos depois do fim da Guerra, Lindolfo, conheceu a esposa e se casou. O casal teve um filho e passou a viver do dinheiro que a produção rural rendia. Hoje eles vivem em São Miguel do Oeste. Ao lado da esposa e bem pertinho do fogão à lenha, seu Lindolfo revela que a vida foi generosa, mas que ainda tem muito o que viver. “Nossa vida não foi folgada, nem apertada. O que dá para dizer é que vivemos bem nesses anos todos. Apesar da minha idade, tenho saúde de ferro, pretendo viver mais alguns anos”, conclui.

MEMÓRIAS DE UM EX-COMBATENTE
Veterano escreve livro baseado nas experiências vividas na Guerra

O livro foi escrito durante a guerra e guardado à sete chaves, até ser publicado no ano de 2000 em Mondaí

            “Estou escrevendo estas linhas à noite, na barraca, apoiando o caderno encima dos joelhos, segurando minha lanterna com a mão esquerda, pois não tenho mais velas. O Wilson, meu companheiro de barraca, em geral dorme antes de mim. Ele fica resmungando porque eu tenho a luz da lanterna acesa. Ele que tenha um pouco de paciência. Ontem, o Wilson e eu apostamos uma janta em um bom restaurante do Rio de Janeiro se nós estivermos de volta ao Brasil antes de 31 de dezembro de 1945. Eu terei de pagar. Se for depois dessa data, é ele quem vai pagar. Só que ninguém pensou em caso de morte”. O relato foi escrito pelo jovem sargento José Edgar Eckert no dia 14 de novembro de 1944, uma terça-feira.
            Este trecho e outros diversos relatos foram eternizados nas 455 páginas do livro “Memórias de um ex-combatente”, escrito pelo militar durante toda a Segunda Guerra Mundial. O senhor de 92 anos, foi um dos soldados convocados para atuar no conflito. Hoje, o gaúcho natural da cidade de Selbach, mora na cidade catarinense de Mondaí e está debilitado em função da idade. Porém, em uma antiga entrevista, o veterano de guerra relata algumas das lembranças guardadas nas páginas dos antigos diários de guerra.

COMO TUDO COMEÇOU...

José Edgar Eckert
            A vida militar de José Edgar começou em Passo Fundo, no ano de 1939 onde serviu como 3º sargento. Após uma temporada na cidade gaúcha, foi transferido para o 1ª Regimento de Infantaria Sampaio, no Rio de Janeiro, onde pretendia dar continuidade aos estudos interrompidos aos 13 anos de idade. “Aos 13 anos vim com a minha família para Pinhalzinho, onde eles estavam iniciando uma madeireira na mata virgem daquele sertão. Depois de alguns anos de trabalho duro na roça, amadureceu em mim a vontade de recomeçar os estudos interrompidos. Aos 19 anos, meu pai me encaminhou ao quartel de Passo Fundo, onde me apresentei como voluntário”, relata.
             Na época, o Brasil obedecia a ditadura imposta pelo presidente Getúlio Vargas e já começava a sofrer a pressão dos Estados Unidos para participar da guerra. “Os EUA começou a exigir que o Brasil participasse da guerra contra a ditadura da Alemanha e Itália. Mas nós nos perguntávamos: “Como vamos lutar contra a ditadura da Europa se em casa também temos ditadura?” Nós que estávamos sendo preparados para ir à luta em favor da democracia, não podíamos entender isso muito bem. Mas enfim, como sargento, eu não podia decidir essas coisas, o jeito era obedecer e cumprir ordens”, relata.
            Após a convocação, os mais de 25 mil brasileiros levaram vários meses para se organizar e ficar em condições de tomar parte nas operações de guerra na linha de frente da Itália. José Edgar partiu junto com os colegas do 2º e 3º escalões no dia 20 de setembro de 1944. Os militares navegaram à bordo de um navio americano de transporte de tropa, rumo a Livorno, na Itália. “A viagem durou 15 dias. De manhã bem cedo, apreciávamos o quanto era lindo o nascer do sol entre céu e água. É no mar que se pode visualizar bem direitinho a linha do horizonte. Quando chegamos a Livorno, o acampamento já estava montado”, lembra.
Placa de identificação de José Edgar
          Durante cada dia na guerra, José Edgar tinha além dos colegas de farda, a companhia de um caderno. Nas páginas em branco, o militar escrevia diariamente tudo que os olhos viam e o coração sentia. Foram quatro cadernos escritos durante o período em que estiveram no país italiano. Na época, era proibido fazer qualquer tipo de relato sobre a situação e sobre os rumos da guerra. “São 455 páginas registradas. É um relato modesto, simples e verdadeiro de alguns acontecimentos dos quais participei. Eu queria que ficasse uma lembrança para mim e para a minha família. O livro falava de mim, dos meus companheiros. À noite, eu deitava em qualquer lugar e escrevia. Escrevi até o último dia”, recorda.
         Na página 203 do livro, José Edgar narra a conquista do temido Monte Castelo, onde as tropas brasileiras atuaram em diversas investidas. “Hoje nossos aviões e a artilharia não deixam os alemães descansar e apoiam a progressão do nosso Regimento. O Monte Castelo é envolto numa densa nuvem de fumaça e os aviões despejam constantemente bombas e mais bombas. Todos nós suspiramos, pois desta vez conseguimos dominar este Monte que até então ninguém a não ser os alemães, haviam pisado, desde a derrota da Itália”, relata.
            Em agosto de 1945, finalmente os militares se preparavam para desembarcar no Brasil e reencontrar as famílias. Em um dos últimos relatos, no dia 31 de agosto de 1945, o jovem militar decretava o fim dos diários de guerra. “Já deixou de ser um diário este meu histórico de guerra. Pretendo encerrá-lo definitivamente mesmo porque não faz mais sentido. Passaram-se oito dias após aquela nossa chegada à Pátria, o que constitui, sem dúvida, um dia inolvidável na vida de todos nós que tivemos a ventura de regressar ilesos”, escreveu.
José Edgar entre os colegas em foto tirada na Guerra
            Um ano depois, em 1946, o militar optou por deixar o Exército e recebeu como homenagem a medalha de Campanha, a Medalha de Guerra, e a Medalha Cruz de Combate. Em 1948, José Edgar foi nomeado Tenente da Reserva pelo então presidente da Republica, Eurico Gaspar Dutra.            Na véspera do natal de 1945, ele enviava do Rio de Janeiro, uma aliança de noivado para a antiga amiga Zica, que morava em Pinhalzinho.
            O noivado evoluiu, os dois se casaram e tiveram três filhos.  Hoje, o veterano vive na cidade de Mondaí, junto da esposa e dos filhos e é constantemente homenageado nos inúmeros encontros de ex-combatentes realizados em diversos Estados brasileiros. O livro foi publicado com o apoio do filho Sérgio, que percebeu o valor dos documentos. “É um sentimento de muito orgulho. Nem minha mãe sabia o conteúdo daquele diário. Ele guardava à sete chaves. Em 2000, eu ensinei ele a digitar e ele foi repassando os textos dos diários para o computador”, explica.
            Sérgio também teve participação no livro do pai. Ele escreveu a primeira orelha do livro como homenagem ao veterano, dono de um dos relatos mais completos e verdadeiros da história da Segunda Guerra Mundial. “O orgulho que se aloja incontido dentro de mim não podia, jamais, deixar de ser dito ou escrito em algum lugar”, enfatiza. Os outros dois filhos, Lúcia e Antonio, a esposa, os colegas mortos em combate e os camaradas que retornaram com ele da guerra, também foram homenageados nas dedicatórias das primeiras páginas do livro. Hoje, o veterano escreve outro livro sobre a Segunda Guerra Mundial.

FÉ E DEVOÇÃO


O poder das rezas e benzeduras


Camila Pompeo

É muito comum encontrarmos pessoas que sempre recorrem à uma benzedeira para curar certos tipos de doenças ou até mesmo para afastar o mau olhado. Essa prática, passada de geração a geração, faz com que o trabalho das benzedeiras não cesse nunca. Por conta disso, ainda é grande o número de pessoas que optam pela cura através da fé, ao invés do uso de medicamentos convencionais.
A benzedura é uma atividade realizada com intuito de curar uma pessoa doente, aplicando sobre ela gestos, em geral acompanhados por alguma erva com pretensos poderes sobrenaturais, ao tempo em que se aplica uma prece. Crença passada de geração para geração, a benzedura se tornou um importante elemento da cultura popular do Brasil. Apesar da resistência da ciência, a atividade muitas vezes impressiona pelos seus efeitos. Para a ciência, os efeitos atribuídos à reza são guiados pela fé daqueles que se submetem à cura.
O benzedor em geral é alguém da própria comunidade que recebeu os ensinamentos dos antigos. A oração feita sempre de forma oral é um dos principais motivos pelo qual não se tem registros sobre eventuais fórmulas curadoras. A reza feita para curar uma pessoa de determinada doença é, na maioria das vezes, guardada em segredo pelo benzedor. As atividades exercidas por ele geralmente não são cobradas.
Os rezadores ou benzedores são mais comuns nas regiões remotas, onde os médicos são escassos e os remédios inacessíveis. Apesar disso, a maioria dos benzedores não trabalham com o intuito de substituir o atendimento médico. A origem dessa prática vem dos pajés indígenas com a aplicação de elementos próprios da religião cristã.

O endereço para a cura do amarelão

Dona Lucíola Frigo - Foto: Camila Pompeo
A medicina vêm se aperfeiçoando a cada dia e com isso, encontra cura para doençãs que antes pareciam incuráveis. A ciência também continua fazendo descobertas e a fé ainda move a cada ano milhares e milhares de fiéis em busca da realizações de pedidos. Porém, algumas doenças ou até mesmo pequenas alergias são curados por efeitos sobrenaturais que não conseguem ser curados pela medicina convencional. Neste caso, entram as benzedeiras, famosas conhecidas da comunidade e que tem um grande poder de cura, movido pela fé.
Lucíola Frigo é mais que uma conhecida da comunidade no município de Descanso. Lá, a senhora de 74 anos é conhecida como Dona Lucíola e sua casa é, todos os dias, procurada por dezenas de pessoas que buscam a cura para o amarelão, um tipo comum de anemia. Dona Lucíola começou sua história com a benzedura há muitos anos atrás, quando ainda era ministra dos enfermos em uma Igreja do município. No trabalho que desempenhava, a senhora visitava os doentes nas casas e hospitais e resava pela sua cura.
Foi exatamente no hospital que dona Lucíola começou a história da benzedura. Em uma visita a um doente, a então ministra foi apresentada a uma oração e surpreendida pelo pedido do doente para que seguisse com as bençãos guiadas pela fé. “Um senhor estava muito, muito doente e eu fui rezar pra ele no hospital. Um dia ele me chamou e me entregou a oração e pediu que eu continuasse com as benzeduras e eu aceitei. Naquele mesmo dia ele morreu”, relata.
Mas a primeira experiência com a benzedura veio com a necessidade de cura do filho de uma amiga, internado há mais de 15 dias com amarelão. Lucíola conta que os pais já não sabiam mais o que fazer para que o jovem se curasse da doença. Foi naquele dia que dona Lucíola colocou em prática a oração que havia recebido no hospital. Com o tempo, a vocação preencheu tanto a vida de Lucíola que ela precisou largar a função que exercia na Igreja. “Um moço estava muito mal no hospital, eu cheguei lá e falei com ele. Eu vim pra casa, mandei chamar a mãe dele e disse que eu iria benzer. A mãe dele chorou de alegria. Eu comecei a benzer ele e no terceiro dia ele foi pra casa”, relembra.
Desde então, dona Lucíola tem aplicado o conhecimento que recebeu e, por conta disso, já se tornou figura conhecida no município. Na rua onde mora, a benzedeira é citada com carinho pela comunidade. É difícil encontrar quem não conheça o poder da cura pela fé da benzedeira. As portas da casa de dona Lucíola estão sempre abertas para atender a todos que necessitem, sem nenhum tipo de cobrança.
Além do dom da cura pelas orações que faz, dona Lucíola conseguiu ainda, através da sabedoria popular, uma receita feita essencialmente de ervas para curar a anemia. Todos os dias, pessoas das mais diversas classes sociais procuram a benzedeira para adquirir o famoso xarope. “Eu faço um xarope de ervas, um remédio caseiro com plantas. É bastante procurado. Para os que têm diabete, eu faço com adoçante e tem ajudado muito as pessoas”, ecxplica. 
Dona Lucíola explica que a benzedura que realiza é apenas uma oração. No próprio antebraço, a benzedeira realiza uma prova, ou seja, uma medição com a palma da própria mão. Uma possível diferença na medição, realizada duas vezes, aponta que a pessoa benzida sofre de amarelão. O tipo de benzedura realizado por ela pode ser feito até mesmo longe da pessoa a ser curada. “Eu faço uma prova em nome do Divino Espírito Santo e vejo se a pessoa está tomada ou não de amarelão. Mas eu só benzo para amarelão e já é bastante pra mim. Várias pessoas vêm aqui, tem dias que fico atarefada”, destaca.
Na casa onde mora, dona Lucíola tem o armário e a parede da sala repletas de presentes trazidos por pessoas que quiseram agradecer a cura. Logo na entrada da porta da sala da benzedeira é possível ver a pomba branca (Divino Espírito Santo) em gesso, pendurada na parede. Lucíola ainda mostra com orgulho outros presentes que recebeu de pessoas de outros estados que ficaram agradecidos pela cura da doença. Ela lembra, no entanto, que os atendimentos são realizados de coração, sem nenhum tipo de cobrança. “O Divino Espírito Santo, os santinhos, essas coisas tudo vem de pessoas que vem me agradecer e me trazem as lembrancinhas. Mas eu não cobro nada, eu sou muito simples. Me sinto no paraíso por poder ajudar as pessoas”, argumenta.
A concentração para realizar a benzedura vem, segundo ela, atravéz da oração. Além da benzedura, Lucíola ainda aconselha os benzidos a realizar orações por pelo menos nove dias depois da benzedura. É uma continuidade do trabalho, regido pela fé da pessoa benzida. 

O padre que distribui bênçãos para famílias de vários Estados

Padre Ermindo Estraich - Foto: Camila Pompeo
            Além de dona Lucíola, o município de Descanso possui outra figura carimbada quando o assunto é a cura pela fé. No município, o padre Ermindo Estraich, desempenha um importante papel na busca pela cura espiritual e física daqueles que procuram seu santuário localizado na saída para a Linha Pratinha. Nos dias de mais movimento, Ermindo chega a atender até 20 pessoas.
Mas a história do padre com o sacerdócio começou em 1996 quando ele foi ordenado diácono pela Igreja Católica Apostólica Conservadora do Brasil, ramificação da Igreja Católica que permite que os padres constituam família. No ano seguinte foi ordenado sacerdote e exerceu o trabalho por quatro anos em Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul.
Foi ainda na paróquia que o padre começou o trabalho de bênçãos. Com o tempo, ele foi transferido para o município de Bandeirante, onde continuou os trabalhos na Igreja Católica Apostólica da Doutrina de Cristo. Padre Ermindo teve a oportunidade de, ao longo do tempo, realizar ainda dois cursos, um de massoterapeuta e outro a área da manipulação de remédios fitoterápicos. “Temos salas de massagem. Temos também os produtos fitoterápicos e as bênçãos para as pessoas que precisam de algum tipo de oração. Medicamento quem receita é o médico. Temos apenas os remédios naturais, fitoterápicos para auxiliar as pessoas na cura de algumas doenças”, explica.
No santuário onde atende, Ermindo realiza as bênçãos sempre nas segundas, terças, quintas e sextas-feiras, sempre pela parte da tarde. Na rua que dá acesso para a Linha Pratinha não há quem não conheça o Padre. Ele conta que as pessoas que procuram suas orações, vão em busca de melhoria nos negócios, no casamento e na saúde física e mental. Para o atendimento é cobrado, segundo ele, apenas uma taxa simbólica. “Uns chamam benzimento, outros chamam de benção, outros ainda chamam de reza. Na verdade é a mesma coisa porque tudo é guiado pela palavra de Deus. As pessoas com problemas de saúde, mentais, espirituais, casamento, desentendimento na família, problemas nos negócios, todos vem pedir a benção que é algo que vem de Deus. Ele deixou os escolhidos para seguir esse trabalho aqui na Terra, segundo o que Ele fazia”, argumenta.
Realizando as benções há pelo menos 13 anos, o padre já possui uma lista de bons frequentadores de seu santuário e de pessoas agradecidas pelas graças recebidas tanto para a saúde quanto para a vida pessoal. Ele explica que o sentimento é de dever cumprido e diz que o desejo é levar o trabalho em frente ainda por muitos anos. “É muito gratificante. A minha maior alegria como sacerdote é quando você realiza uma novena, uma oração, dá uma benção e a pessoa encontra a gente na rua e diz que está tudo bem. Isso me enche de alegria e de prazer de poder levar, cada vez mais, esse trabalho adiante”, relata.
Além do trabalho que desempenha na Paróquia e dos atendimentos realizados em seu santuário, o padre divide seu tempo ainda com a família. Casado, ele diz se sentir completo e feliz com sua condição. “Sou casado, tenho filhos e é maravilhoso. É muito gratificante ser um sacerdote casado, sou feliz por isso. Tenho uma boa esposa, que me apoia em tudo que faço, então estou muito feliz”, justifica.
Durante os mais de dez anos em que trabalha dando as bênçãos separadamente, o padre Ermindo já presenciou diversos casos marcantes. Ele lembra que um deles é o de um senhor morador do município de Romelândia que parou de andar com muletas depois que exercitou sua fé. “Não adianta o sacerdote fazer uma benção se a pessoa que vier não tem fé porque, na verdade, o que mais funciona é a fé da pessoa que procura. O caso que mais me marcou foi de um senhor que andava de muletas. Ele veio até mim depois de algumas recomendações. Ele saiu da casa dele com a mente pronta de que ia ficar bom. Dei a benção para ele. Em 18 dias aquele senhor estava andando sem muletas e hoje trabalha na lavoura”, relembra.
O padre lembra ainda que nunca divulgou o trabalho na mídia mas que a divulgação ocorre de forma indireta, ou seja, pelo boca a boca das pessoas que procuram as bençãos como forma de auxílio para a melhora da vida pessoal e da saúde mental e física. A fama é tanta que Ermindo já chegou a atender pessoas de Portugal, Bolívia e Argentina. “Meu trabalho nunca foi divulgado. São as próprias pessoas que vão falando umas para as outras e vêm até aqui com fé. Eu atendo pessoas de outras regiões, estados e países”, conclui. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

Motocão 2012


Motociclismo: paixão sem fronteiras 

SÃO MIGUEL DO OESTE

Camila Hundertmarck

O Motocão chega à sua 14ª edição com o maior público de todos os tempos. Apaixonado por motos, os visitantes e os motociclistas da cidade aproveitam o clima do evento para demonstrarem toda sua paixão pelo veículo de duas rodas. Ronco de motores, uma infinidade de personalidades e características e motocicletas de todas as cores e modelos.
Os visitantes vêm de muitos lugares. Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná são alguns dos estados que marcam presença em todas as edições do Motocão. Odair Hamilton Hemert, 57 anos, não veio de tão longe, mas relata que não perde nenhum encontro de motocicletas do país. Acompanhado da esposa, Odair visita São Miguel do Oeste todos os anos na época do evento. Ele conta que já viajou o mundo inteiro com seu triciclo. “Já fomos para Salvador, Bahia, Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, só de triciclo. A sensação de liberdade é muito boa, de conhecer o Brasil e era um sonho que está sendo realizado agora. Vale muito à pena”, relata.
            Odair e a esposa participam do Moto Grupo Traink do Oeste, de Chapecó. Ele conta que durante a semana todos trabalham, para somente na no sábado partirem para os encontros de motociclestas do país inteiro. “A gente trabalha até a sexta-feira e no sábado a gente vai para os encontros. Todo o ano nós viemos no Motocão, é muito bom, muito bem organizado”, explica. Depois de São Miguel do Oeste, o casal já tem rumo certo. No próximo final de semana eles devem seguir rumo à cidade catarinense de Arvoredo. “A cidade mandou o convite do evento e, com certeza nós vamos. Nós já fomos ano passado e vamos de novo este ano”, conclui.

EXPOSITOR E APAIXONADO POR MOTOS

            Além dos visitantes que vêm rumo à cidade para diversão e entretenimento, muitos chegam a São Miguel do Oeste para exposição de seus produtos nas barracas que ficam nas ruas laterais à área coberta. George Pinto, 56 anos, veio da cidade gaúcha de Porto Alegre com outros dois amigos à bordo de um microônibus. O gaúcho trouxe para venda as esculturas de papel e fibras que ele mesmo produz. George conta que apesar de terem vindo de ônibus, o grupo é amante de motos e esse é o principal motivo de viajarem pelo país todo. “A gente gosta de moto, o motivo de a gente viajar mesmo é a moto e como temos que trabalhar, a gente vai conseguindo conciliar para que dê certo. De problema mesmo, só saudade da família, pois ficamos até 20 dias fora”, explica.
George destaca ainda que quando viaja de moto, sempre tem a companhia da esposa. Ele conta que as viagens acontecem por todo o sul do país. “Quando viajo de moto ela vai junto. Quando viajo de ônibus, ela fica. Mas no fim de semana quando eu posso, fujo. É uma paixão pelas motos e por viajar”, relata.
A próxima parada, segundo ele, é na cidade de Gravatal. Só depois de participar do encontro da cidade catarinense é que George e os amigos retornam para Porto Alegre para rever a família. “A gente viaja bastante, vamos a todos os eventos no Rio Grande do Sul e fora também. Viemos de Ijuí para cá e daqui vamos para Gravatal, em outro encontro”, finaliza.

ACROBACIAS SOBRE DUAS RODAS

Na noite do último sábado e na tarde do domingo, dia 11, a equipe Giro Total de Estância Velha, Rio Grande do Sul, se apresentou para o público migueloestino. Há nove anos, a Equipe percorre as cidades do Sul do país fazendo acrobacias sob as duas rodas. Conforme um dos pilotos, Rodrigo Nunes, a equipe é formada por um mecânico, dois pilotos e um locutor. Rodrigo conta que as motos usadas no show possuem alterações próprias para o tipo das acrobacias. “Nós temos um mecânico próprio que cuida de todas as motos. É preciso fazer algumas alterações para que elas aguentem”, explica.
Segundo ele, em nove anos, nunca houve qualquer tipo de acidente durante as apresentações do grupo. “A nossa preocupação é nos preservar e preservar o nosso público”, destaca. Rodrigo conta que a sensação durante os shows é de liberdade. “É um lugar que a gente gosta. E sabemos que quem está ali curte motos então é muito gratificante”, relata. Rodrigo divide a pista com o também piloto e dono da equipe, Ademir Zimermann.  Zimermann conta que a esposa é parceira e sempre que pode, o acompanha nas viagens. “Cada um tem seus trabalhos durante a semana e, nos finais de semana, viaja com a equipe. É um extra. Minha esposa é parceira, ela sempre participa”, conta. 

terça-feira, 13 de março de 2012

ELAS CONQUISTAM O MERCADO

Mulheres garantem lugar no mercado, mas 
salário ainda é inferior ao dos homens

A mulher, que representa a maior parcela da população, viu aumentar seu poder aquisitivo, o nível de escolaridade e conseguiu reduzir a defasagem salarial que ainda existe em relação aos homens

SÃO MIGUEL DO OESTE

Camila Hundertmarck

A cada ano que passa, a classe feminina continua a aumentar a sua inserção no mercado de trabalho.Hoje as mulheres estão adotando, cada dia mais, uma postura atuante, não apenas pelo seu próprio esforço, mas também pelas exigências do mundo moderno.  Os últimos 20 anos foram essenciais para que elas fortalecessem a sua participação no mercado e garantissem sua responsabilidade no comando da família.
A história da mulher no mercado de trabalho começou com a I e II Guerras Mundiais, nos anos de 1914 a 1918 e nos anos de 1939 a 1945. Naquela época, os homens atuavam nas frentes de batalhas e se tornava responsabilidade das mulheres o cuidado com a casa e com os negócios da família.No século XIX, no entanto, várias mudanças ocorreram na organização do trabalho feminino. Com a consolidação do sistema capitalista e com o desenvolvimento tecnológico, a maior parte da mão-de-obra feminina foi transferida para as fábricas.
Com o passar do tempo, porém, as mulheres, maior parcela da população, viram aumentar seu poder aquisitivo, seu nível de escolaridade e conseguiram reduzir a defasagem salarial que ainda existe em relação aos homens.Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas revelam que em 2010, a participação das mulheres na população economicamente ativa foi de 45,3%. Em 2003, a participação feminina era menor, com 43%.


AS MULHERES NO COMANDO
Pouco a pouco as mulheres vão ampliando seu espaço na economia nacional e garantindo a execução de funções que, antes, eram destinadas apenas para o sexo masculino. Pesquisas recentes apontamo crescimento espantoso do número de mulheres em postos diretivos nas empresas e instituições.Marilene Stertz, 56 anos, é uma delas. Pró-reitora acadêmicae professora da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), ela é responsável pelo controle do ensino, da pesquisa e da extensão na universidade.
Marilene conta que desde muito cedo já sabia que profissão seguiria. Sua introdução no mercado de trabalho teve início na área da educação, quando ela optou por seguir seu sonho e fez um curso no magistério. “Minha história como profissional começou com o próprio investimento na área da educação. Fiz um curso do magistério em nível de ensino médio porque eu realmente queria ser professora”, relata.
Antes de exercer a atual função, ela foi graduada em Letras e fez especialização em Comunicação Social. Em 1974, Marilene realizou seu sonho e se tornou professora das disciplinas de literatura e língua portuguesa para turmas do ensino médio. Hoje, a pró-reitora desempenha uma das funções mais importantes dentro da Universidade, mas garante que o comprometimento continua. “Eu tenho muito orgulho de onde cheguei e isso sempre me remete a me preparar mais e melhor. Eu me sinto muito bem e muito feliz com isso que eu faço. Eu me realizo”, afirma.
Para a profissional,a mulher já garantiu seu espaço no mercado de trabalho. O motivo, segundo ela, é o investimento em cursos de ensino superior e a responsabilidade em trabalhar coletivamente. “A mulher tem capacidade para cuidar de detalhes, atua com equilíbrio entre emoção e razão e estámais aberta e flexível às mudanças. Ela trabalha numa perspectiva coletiva e valorizam opiniões”, justifica.
A pró-reitora avalia ainda que o antigo modelo hierárquico que colocava os homens como chefe dos negócios e da família, fez com que hoje a mulher continue em segundo plano no mercado de trabalho. “Os padrões tradicionais com base numa visão patriarcal onde o homem manda,vem historicamente se perpetuando. Mas as organizações modernas no serviço público quanto no privado vem modificando tal padrão. Hoje o salário depende do conhecimento que considera habilidades e competências”, conclui.


ESPOSA, MÃE E PROFISSIONAL
A história da mulher no mercado de trabalho, no Brasil, está sendo escrita com base na queda da taxa de fecundidade e no aumento no nível de instrução da população feminina. Hoje o perfil das mulheres é muito diferente do perfil apresentado no começo do século. Além de trabalhar e ocupar cargos de responsabilidade, ela concilia as tarefas tradicionais: ser mãe, esposa e dona de casa.
Otília Donato Barbosa, tem 38 anos e é coordenadora do curso de Sistemas da Informação da Unoesc. Casada e com um filho de quatro anos, ela precisa se dividir entre as tarefas profissionais e o ambiente familiar. “É uma rotina bastante corrida. Fico em casa de manhã e trabalho nos turnos da tarde e da noite na Unoesc. Eu saio da universidade no final da tarde, busco meu filho na escola e fico um pouco com ele antes de voltar a trabalhar à noite”, conta.
Otília ingressou no mercado de trabalho como estagiária de um curso técnico em eletrônica, mas logo garantiu turmas do ensino médio para dar aulas. Com o passar do tempo, ela começou a graduação em Sistemas da Informação e ministrou aulas por dois anos na universidade. Hoje ela coordena outros três cursos e afirma que a busca pelo seu lugar no espaço teve raízes na família. “Meu marido me incentiva bastante. Ele sempre apoiou que eu estudasse. Nós já viemos de uma família onde as mulheres não ficavam somente em casa com os filhos, elas já trabalhavam, então foi um processo natural”, justifica.
A coordenadora destaca ainda que o preconceito com a classe feminina vem diminuindo com o passar do tempo. Para ela, o preconceito parte das próprias mulheres em relação à algumas áreas profissionais. “Na área da informática ainda há uma quantidade pequena de mulheres. Temos ainda a necessidade de convencer as mulheres de que a informática é uma área para elas também. Talvez seja um preconceito das próprias mulheres, pois, tem empresas daqui da região que até pedem mulheres como funcionárias. Elas têm um perfil que a empresa procura”, opina.


A CLASSE FEMININA E A INDEPENDÊNCIA

Nível de escolaridade tem contribuído para conquistar a 
“tão sonhada” independência

Um levantamento feito pela Universidade do Oeste de Santa Catarina Unoesc), aponta que mais da metade do número de acadêmicos da instituição são do sexo feminino. Para um total de 4310 em todos os campus da Universidade no oeste do estado, cerca de 2810 são mulheres.Em São Miguel do Oeste os cursos mais procurados pela classe feminina são os cursos de direito, com 345 mulheres, administração, com 221 e enfermagem, também com 221 alunas.
Além do grande número de mulheres que buscam a graduação na região oeste, a universidadepossui também um número elevado de mulheres em cargos de docência e coordenação. O levantamento mostra que de 195 professores, 97 são mulheres.
Leoní Serpa é uma das 97 professoras e coordenadoras da Universidade. Responsável pelo comando das turmas de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Ela conta ter dividido com as seis irmãs, desde muito cedo, o desejo da independência. “Eu venho de uma família de seis mulheres. Talvez por conta de estar dentro de uma família com muitas mulheres, a gente sempre foi muito batalhadora e todas alcançaram êxito profissional. Hoje tem na família, biomédica, advogada, arquiteta, contadora e eu que sou jornalista. Todas nós construímos nossos espaços por nós mesmas e não pela indicação de alguém”, relata.
A professora destaca ainda que apesar do preconceito que ainda existe, a classe feminina têm garantido o seu espaço com base na competência e profissionalismo. “Toda a mulher tem essa coisa do inovador, do desafiador. Talvez pela minha personalidade eu tenha encontrado algum preconceito, mas eu não senti esse preconceito diretamente e sim de forma velada. Todas nós somos testadas o tempo todo. Ou somos determinadas ou não alcançamos o que queremos. Se a sociedade acha que precisa ter uma data é porque ainda não existe um entendimento de que esse gênero é fundamental para a sociedade”, opina.

PROJETO BUSCA IGUALDADE SALARIAL NO PAÍS
Apesar do crescimento da classe feminina em cargos de diretoria, o salário continua desigual em relação ao dos homens. Segundo uma pesquisa recente feita por uma empresa de recrutamento e seleção de executivos, as mulheres ganham, em média, 22,8% a menos que os homens.
A boa notícia é que essa diferença nos rendimentos deve cair rapidamente com a aprovação do projeto que multa as empresas que pagarem às mulheres salários inferiores aos dos homens quando ambos ocuparem as mesmas funções. O objetivo é encontrar uma forma de acabar com a discriminação entre os sexos.Após a aprovação do projeto, o Senado estipulou que a multa será de cinco vezes a diferença entre os salários durante todo o período de contratação da funcionária. Como a proposta foi aprovada em última instância, ela deve seguir agora para sanção da presidente Dilma Rousseff. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Atrativo


Pizza em metro atrai visitantes de toda a região

SANTA HELENA

Camila Hundertmarck

De origem italiana, a pizza faz sucesso também entre os brasileiros do Norte ao Sul do País. No município de Santa Helena, a pizza deixou seu formato tradicional para ganhar proporções bem maiores. Na pizzaria do casal Dárcio e Eliane Rigão é quase impossível encontrar uma cadeira vazia. Moradores das cidades vizinhas lotam o local para provar a especialidade da casa: a única pizza em metro da região Oeste catarinense.
Dárcio e a esposa são naturais de Santa Helena, mas moraram cerca de cinco anos na cidade de Turin, na Itália, onde trabalhavam em uma churrascaria. Ele conta que a ideia surgiu quando o casal visitou uma pizzaria nos Alpes italianos. “Nós saímos para conhecer alguns lugares e o italiano, dono da churrascaria onde eu trabalhava, nos levou para conhecer uma pizzaria perto dos Alpes, na divisa com a Suíça. Foi lá que conhecemos a ideia”, relata.
Após algumas idas à pizzaria, Dárcio e Eliane se tornaram amigos do dono, que não hesitou e resolveu passar a receita da famosa pizza ao casal. “Ele sempre ia até a churrascaria onde trabalhávamos e a gente criou uma amizade com ele. Aí ele nos passou a receita da massa e do molho da pizza, até porque éramos brasileiros e não iríamos colocar uma pizzaria na Itália”, justifica.
O casal de brasileiros morou na cidade italiana de 1994 até o ano de 1999 e só resolveu retornar ao Brasil quando descobriu que teria um bebê. “Voltamos para o Brasil porque minha esposa ficou grávida e queríamos que o bebê nascesse brasileiro”, conta. Ao chegarem ao Brasil, Dárcio e a esposa moraram por um tempo em Brusque, no Norte de Santa Catarina, mas não demorou muito para que decidissem voltar à cidade natal.
Em Santa Helena, o casal comprou o prédio de um antigo bar e abriu uma lanchonete que, com o passar do tempo, foi sendo reformada até se tornar uma pizzaria. “Com o tempo fechamos a frente, que era aberta, e implantamos o forno à lenha. Antes fazíamos pizzas para o público local, mas quando surgiu a massa em metro moradores de todas as cidades da região começaram a aparecer por aqui”, lembra.
Quando a novidade se espalhou, a pizzaria “Feito à Mão” ficou famosa na região. Dárcio explica que um metro de pizza rende em torno de 40 pedaços e custa em média R$ 55,00. “É uma pizza para famílias, pois cada metro rende em torno de 40 pedaços. Então todos que vêm com uma turma grande”, relata.
         No início a propaganda foi feita por meio da rádio  e de cartões distribuídos na cidade. Hoje, no entanto, o dono diz que a propaganda é feita pelos próprios clientes que frequentam a pizzaria. “O que mais rende clientela é o ‘boca a boca’. O pessoal vem aqui e depois sugere para os amigos. Temos uma carteira fixa de clientes e todos que vêm acabam voltando. A pizzaria funciona de quarta à sexta-feira e tem clientes que frequentam pelo menos uma vez por semana”, garante. Ele revela ainda que o sistema da pizzaria é baseado no europeu.  “Por isso todo mundo que quiser vir à pizzaria tem que ligar antes para reservar e garantir o lugar, para não chegar aqui e ficar esperando”, explica.
         Com uma clientela grande, a pizzaria existe há quatro anos e tem seis funcionários entre garçons e pizzaiolos. Dárcio cuida da parte de atendimento aos clientes, enquanto a esposa Eliane põe, literalmente, a mão na massa. O casal conta que se surpreendeu com a fama que a pizzaria ganhou em algumas cidades da região. “A gente não imaginava que ia chegar a essa proporção. A vantagem é que se não dá dinheiro a gente come o estoque. Mas dá, sim, pra viver disso”, finaliza.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Instinto Materno

Cadela adota e amamenta gato recém-nascido
SÃO MIGUEL DO OESTE

A cadelinha Sheron, de pouco mais de um ano, demostra todo seu desejo de ser mãe, cuidando e amamentando a gatinha recém-nascida Cristal

Texto e fotos: Camila Hundertmarck

Sheron e Cristal
Sheron e Cristal vivem uma relação diferente. A gatinha abandonada pela mãe biológica, mama e recebe a proteção da nova mãe há uma semana. O amor entre os dois animais chamou a atenção dos donos e vem comovendo os vizinhos. Eliane Diehl e Diego Trentin encontraram a gatinha Cristal na terça-feira de carnaval em uma associação campestre onde foram almoçar com a família.
Eliane conta que a gatinha foi encontrada encima de uma pilha de lixo e entulho. Ela estava muito machucada e ainda tinha junto ao corpo o cordão umbilical. “Nós encontramos a gatinha jogada no meio do entulho. Meu marido foi buscar ela perguntou para uma mulher se ela tinha mãe, porque ela estava machucada e com um olhinho furado. A mulher disse que a gata que é mãe dela, não cuida dos filhotes, aí nós resolvemos ficar com ela”, relata.
Ao chegar em casa, Eliane se preocupou quando notou que a temperatura do corpo do filhote estava cada vez mais baixa. Foi aí que surgiu a ideia de colocá-la encima da barriga da cadelinha Sheron para que ela se esquentasse. “Quando chegamos em casa vimos que ela estava gelada. Peguei uma mamadeira de boneca e tentei dar leite para ela mas não consegui. Tive a ideia de colocar a gata na barriguinha da Sheron, para ver se ela se esquentava, senão ela ia morrer de frio”, conta.
Eliane recorda que Sheron não se incomodou com a presença do filhote e até deixou que ele se esquentasse junto ao seu corpo. Poucas horas depois, Eliane e o marido se surpreenderam quando perceberam um líquido branco na barriga da cadelinha. “Nós íamos esperar até o outro dia para ver se ela ia conseguir sobreviver e se ela conseguisse nós íamos tentar dar leite de novo para ela ou levar no veterinário pra ver o que podia ser feito. De repente nós fomos olhar as duas e vimos que a Sheron estava com a barriga molhada. Nós até pensamos que pudesse ser xixi da Cristal, mas, quando vimos, era leite. Eu apertei as tetinhas para ver e ela tinha leite em todas”, explica.
Diante da surpresa, os pais da cadelinha Sheron resolveram leva-la junto com seu filhote adotivo para uma consulta no veterinário. Eliana conta que até mesmo o veterinário se surpreendeu com o que viu. “Nós levamos as duas no veterinário e ele falou que a gatinha deve estar com uns seis dias. Agora estamos dando suplemento para ver se ela mantem o leite. Ela está cuidando da Cristal como se fosse filha dela”, relata.
Diego e Eliane com os papais de Cristal

A ADOÇÃO DE SHERON
Assim como a pequena Cristal, a cadelinha Sheron também foi adotada pelo casal Eliane e Diego. Eliane conta que se sentiu na obrigação de proteger a cadelinha vira-lata quando percebeu que estava em perigo. “Peguei ela na favela, o dono queria matar. Eu fiquei com pena e trouxe para casa”, afirma.
 Hoje, Sheron e o poodle Benjamim fazem o que parecia impossível no mundo animal. Os dois se uniram para cuidar do pequeno filhote e não saem mais de perto dele. “Benjamim aceitou muito bem a Cristal e até ajuda a cuidar dela. Até porque eles se gostam muito e eu acho que é por isso que ele ajuda a Sheron a cuidar”, justifica.
Sheron não sai mais de perto do pequeno filhote


ALEITAMENTO
         O veterinário Diego Rossini foi quem prestou o atendimento à Sheron e seu filhote adotivo. Ele conta que se surpreendeu e emocionou com a situação. “É uma emoção e gratificação muito grande porque não é uma coisa comum de a gente ver. Se ela não adotasse a gatinha, provavelmente ela ia vir a óbito” relata. 
        Diego explica que no mundo animal, é difícil acontecer a adoção de animais de diferentes espécies, porém, não é impossível. “Não quer dizer que seja comum e nem raro, depende muito do animal ter esse instinto materno. Se não houver rejeição por parte do outro animal, acaba sendo comum, principalmente quando se trata de filhotes”, explica.
        O veterinário conta ainda que a produção de leite acontece quando o filhotinho tenta mamar na mãe adotiva. “O estímulo da produção de leite acontece quando o filhotinho tenta mamar. Nesse caso, os hormônios acabam tendo influência no fator de aleitamento. Nós receitamos medicamentos específicos para aumentar a produção de leite até porque a cadelinha não estava preparada e nunca tinha tido filhotes”, justifica.